27 de Novembro de 2014

Prisão de ventre, inchaço e flatulência - Todas as respostas

Fonte
Como vai caro leitor?

      O tema de hoje é mais agradável do que parece. Já lá vai o tempo em que o intestino era o órgão sujo, feio e desagradável de que ninguém queria falar, até porque com o estilo de vida moderno surgem cada vez mais doenças relacionadas com estes órgão. São exemplos, as doenças inflamatórias do intestino (síndroma de Crohn, colites), a doença celíaca, diverticulite, intolerância à lactose e até as neoplasias do cólon, que matam casa vez mais portugueses. Para além das doenças declaradas, é comum encontrar-se pessoas com sintomas desagradáveis ligados ao intestino, como flatulência, cólicas, distensão abdominal, hemorroidal, diarreia e a mais comum, obstipação (vulgo prisão de ventre, do inglês constipation).


O intestino


Fonte
     O intestino divide-se em duas porções major, o intestino delgado (6 a 9 metros)  e o intestino grosso (1,5 a 1,8metros). A principal função do primeiro é a digestão e absorção de tudo o que é ingerido (líquidos, alimentos, medicamentos). Portanto, o intestino delgado desempenha um papel fundamental no que toca ao emagrecimento, pois é ele que "decide"  o que é absorvido! Como principal função do intestino grosso temos o armazenamento dos produtos da digestão e a sua preparação para serem eliminados (transição bolo alimentar - fezes), através de processos de fermentação e reabsorção de água. É aqui que reside o único "órgão vivo" do organismo humano: a flora intestinal.



A Flora Intestinal

   Até há pouco ignorada, hoje sabe-se que a flora intestinal desempenha um papel fundamental na promoção da saúde e na prevenção da doença.

Fonte - Escherichia coli, bactéria presente na flora intestinal
    Designa-se por flora intestinal o grupo de bactérias, fungos e protozoários que vivem no intestino grosso. Esta divide-se em dois tipos:
  • Permanente - Associada às células da mucosa do intestino.
  • Transitória - Proveniente da parte superior do tubo digestivo e dependente da alimentação.
   Por essa razão, o equilíbrio da flora intestinal é instável, havendo "uma luta" constante entre espécies "boas" e patogénicas. Ainda assim, as principais estirpes de bactérias residentes no cólon são: Bifidobacterium, Clostridium, Eubacterium, Peptococcus, Ruminococcus, Peptostreptococcus.

     As suas principais funções são:
  •  Prevenir a ocupação do cólon por estirpes patogénicas, equilibrando o pH.
  • Combater infeções  através da produção de antibióticos naturais, que são absorvidos pelo sangue.
  • Melhorar o processo de digestão, contribuindo para produção de enzimas responsáveis pela degradação de nutrientes complexos, ajudando a melhorar a absorção dos mesmos (p.ex. fibras);
  • Eliminar diversas toxinas;
  • Estimular o sistema imunitário;
  • Sintetizar vitaminas do complexo B e K;
  • Reduzir a absorção de sais de colesterol;
  • Prevenir a prisão de ventre, a diarreia e flatulência.

    E como podemos aumentar a flora "boa" no nosso intestino?
  • Fazendo uma alimentação pobre em gorduras, em açúcar e em aditivos alimentares;
  • Privilegiando o consumo de fibras de frutas, vegetais e cereais;
  • Reduzindo a toma de antibióticos e antiinflamatórios (que matam a flora intestinal);
  • Controlando a ingestão de alimentos acidificantes, que desequilibram a flora, como carnes e derivados, álcool.. Veja a tabela seguinte:
    Tabela de alimentos alcalinizantes (preferir) e acidificantes (evitar)

  • Ingerindo próbióticos (bactérias "boas" que se encontram em leites fermentados, iogurtes, kefir, ou em cápsulas);
  • Ingerindo prébióticos (substâncias que "alimentam" a flora "boa", como a inulina e fibras solúveis, do alho, cebola, frutas e vegetais em geral).

A disbiose

    A disbiose consiste numa alteração da flora intestinal, com predominância de estirpes nocivas.

    As suas principais causas são:
Fonte - Doenças relacionadas com a disbiose
  • Alergias e intolerâncias alimentares;
  • Uso abusivo de laxantes;
  • Má alimentação, com ingestão elevada de proteína, de açúcar, de gordura e com baixa ingestão de fibras;
  • Stress;
  • Deficiente secreção de sucos digestivos;
  • Intoxicação por agrotóxicos e metais pesados;
  • Uso abusivo de álcool e tabagismo;
  • Uso indiscriminado de certos fármacos, como antibióticos, antiinflamatórios, antiácidos e corticóides;
  • Quimioterapia;
  • Diverticulose.
    Os sintomas causados pela disbiose são vastos e inespecíficos como obstipação, distensão abdominal, flatulência, dor de cabeça,  hiperatividade do sistema imunitário (aumento das crises de asma, rinite, eczema), fadiga, infecções respiratórias recorrentes, mau hálito, náusea e perda de apetite, mudanças de humor, depressão, etc.

   O tratamento é feito através da correcção dos hábitos alimentares e da administração oral de simbióticos (pré+próbióticos). Consulte o seu dietista para mais esclarecimentos.


Definição de prisão de ventre ou obstipação:

    O funcionamento do intestino varia muito não só de pessoa para pessoa, mas também num mesmo indivíduo em diferentes momentos. Pode ser afetado pela alimentação, pelo stress, pelos fármacos, pelas doenças e até pelos padrões sociais e culturais. Na maioria das sociedades ocidentais, o número normal de evacuações varia entre duas e três por semana até duas a três por dia. As alterações na frequência, consistência ou volume das evacuações ou a presença de sangue, muco, pus ou um excesso de gordura nas fezes podem indicar uma doença.

    Considera-se como obstipação a ocorrência de evacuações incómodas ou pouco frequentes.
Fonte

    Uma pessoa com prisão de ventre produz fezes duras que podem ser difíceis de expulsar. Também pode ter a sensação de que o reto não fica totalmente vazio. A prisão de ventre aguda começa de forma repentina e a pessoa dá-se claramente conta disso. A crónica, por outro lado, pode começar de forma subtil e persistir durante meses ou anos, por forma a que a pessoa "aprenda a viver com isso", sem ter queixas.

      Muitas vezes a causa da prisão de ventre aguda não é mais do que uma alteração recente na alimentação ou uma redução na atividade física (por exemplo, quando uma pessoa fica acamada durante 1 ou 2 dias por estar doente).

       Muitos fármacos, por exemplo o hidróxido de alumínio (princípio ativo comum dos antiácidos de venda livre), os sais de bismuto, os sais de ferro, os anticolinérgicos, os anti-hipertensores, os opiáceos e muitos tranquilizantes e sedativos, podem provocar prisão de ventre.

      São causas frequentes da prisão de ventre crónica:
  • Ambientais: uma escassa atividade física e uma alimentação pobre em fibra. 
  • Endócrinas: hipotiroidismo, valores altos de cálcio no sangue;
  • Secundárias a doenças: Ex. à doença de Parkinson.
  • Alteração da motilidade: uma diminuição das contrações do intestino grosso (cólon inativo) e das contrações concomitantes com a defecação;
  • Fatores psicológicos: stress, ansiedade e depressão.

Uso de Laxativos

    Muitas pessoas utilizam os laxativos para resolver a prisão de ventre. O uso de alguns é seguro a longo prazo, enquanto outros deverão ser utilizados só esporadicamente. Para além disso, alguns são adequados para prevenção e outros para o seu tratamento.

Os agentes formadores de volume:
Estes são os mais adequados à prevenção da obstipação. São exemplos, as pectinas, o farelo, o psílium, o policarbófilo de cálcio e a metilcelulose, que estimulam as contrações naturais do intestino, tornando as fezes mais volumosas, mais moles e mais fáceis de expulsar. Os agentes formadores de volume atuam lenta e suavemente e são considerados um dos métodos mais seguros para facilitar evacuações regulares. Estes produtos ao princípio são tomados em pequenas quantidades. A dose vai sendo aumentada de modo gradual até se atingir a regularidade das evacuações. A ingestão de 1,5l a 2l de água é indispensável.

Os agentes emolientes (amolecedores):
Os amolecedores aumentam a quantidade de água nas fezes. De facto, estes laxativos são detergentes que diminuem a tensão superficial das fezes, permitindo que a água penetre nelas com maior facilidade e as amoleça. O aumento da massa fecal estimula as contrações naturais do intestino grosso e ajuda as fezes amolecidas a deslocarem-se com maior facilidade para o exterior do organismo.

Os agentes osmóticos:
Estes são mais agressivos, pois atraem grandes quantidades de água ao intestino grosso, tornando as fezes moles e fluidas. O excesso de líquido também torna as paredes do intestino grosso tensas, estimulando as contrações. Estes laxativos consistem em sais (normalmente de fosfato, de magnésio ou de sulfato) ou açúcares que quase não são absorvidos (por exemplo, lactulose e sorbitol). Estes laxativos costumam actuar no prazo de 3 horas e são melhores no tratamento da prisão de ventre do que na sua prevenção.

Os laxativos estimulantes:
Estes estimulam diretamente as paredes do intestino grosso, provocando a sua contração e deslocando as fezes. Contêm substâncias irritantes como o sene, a cáscara-sagrada, o vinagre de cidra, o chá verde, a fenolftaleína, o bisacodilo ou o óleo de rícino. Normalmente, provocam uma evacuação semi-sólida no prazo de 6 a 8 horas, mas, muitas vezes, também provocam cólicas. Quando são administrados em forma de supositório, costumam actuar em 15 a 60 minutos. O uso prolongado de laxativos estimulantes pode danificar o intestino grosso. As pessoas que os utilizam podem tornar-se dependentes destes laxativos, desenvolvendo a síndroma do intestino preguiçoso. Os laxativos estimulantes são muitas vezes utilizados para esvaziar o intestino grosso antes de exames de diagnóstico e para prevenir ou tratar a prisão de ventre provocada pelos fármacos que atrasam as contrações do intestino grosso, como os opiáceos.

Fonte - Exemplos de laxantes


Obstipação Psicogénica - um problema comum

     Muitas pessoas pensam que sofrem de obstipação se não evacuarem todos os dias, ou sempre à mesma hora. Outras pensam que sofrem de prisão de ventre se o aspeto ou a consistência das suas fezes lhes parece diferente. No entanto, evacuar todos os dias não significa que se seja "normal" e, pelo contrário, uma menor frequência não é forçosamente sinal de um problema. O mesmo se pode dizer acerca da cor e da consistência da matéria fecal.
    É normal haver alterações transitórias da frequência de evacuação e consistência das fezes. Dependem de fatores tão comuns como o stress, o estado emocional, a alimentação, a ingestão de água, a (in)atividade, a toma transitória de medicação, etc.
     Tais conceitos errados acerca da prisão de ventre podem conduzir a um tratamento excessivo, sobretudo no que se refere ao uso prolongado de laxativos estimulantes, supositórios irritantes e clisteres. Este tratamento pode danificar gravemente o intestino grosso ou induzir dependência. Evite o uso indiscriminado de laxativos.



 Tratamento dietético da obstipação

Fonte
     Inicialmente é essencial que se detete a génese e/ou causa da obstipação. Por exemplo, um dos primeiro passos consiste na restrição total da lactose (veja o artigo sobre intolerância à lactose) e do glúten, dois dos agressores principais do intestino, durante 7 dias. Após esse período faz-se a reintrodução a fim de comparar os sintomas "Com e Sem". Caso haja melhoria significativa da evacuação, dos gases, da distensão abdominal e até da retenção de líquidos, então procede-se ao teste sanguíneo para confirmação do resultado.

    Para além disso é essencial que se faça a correção dos hábitos alimentares, privilegiando o equilíbrio entre os vários tipos de fibras (ver artigo Fibras & Obstipação), o fracionamento das refeições ao longo do dia, o consumo adequado de água e a restrição de açúcares, picantes, gorduras, álcool, ácidos e fermentos. Também o exercício tem um papel fundamental no tratamento da obstipação, já que o intestino depende de movimentos para formar e expulsar o bolo fecal.

   Em termos dietéticos, os principais erros e mitos associados à obstipação são:
  • Os vegetais auxiliam o trânsito intestinal. Na realidade, nem todos! Os de folha muito escura, ricos em ferro e os que são muito rijos, formam bolos fecais secos e duros!
  • Défice de ingestão de água e Inibição de água às refeições. Este é um dos principais mitos da nutrição. Até um copo (200ml) de água/chá auxilia a digestão e promove um bolo alimentar mais pastoso e mole!
  • A toma de chá de Sene ou Sena. O sene é extremamente irritante e desgastante para a mucosa do intestino, matando a flora intestinal e causando habituação. Por ser em chá não é menos agressivo do que em comprimido.

Alimentos que auxiliam o trânsito intestinal:


Conclusão

    A prisão de ventre é um sintoma de que algo não está bem com o seu intestino. Órgão este tão importante para a prevenção de várias doenças e para a promoção da saúde, como vimos no parágrafo sobre a flora intestinal e a sua disbiose. 
  Se tem sintomas anormais e que condicionam a sua qualidade de vida, como inchaço abdominal e desconforto, não hesite em procurar a causa e a resolução, em vez de se conformar. 
   O uso indiscriminado de laxantes está na génese da obstipação, em concomitância com uma alimentação pouco saudável, uma baixa ingestão de água e com o sedentarismo. Comece já a tratar do seu intestino e verá o seu bem estar aumentar, bem como vários sintomas que pareciam em nada se relacionar com este órgão desaparecer ou diminuir (ex. excesso de peso, retenção hídrica, dor de cabeça, crises de asma e rinite, apatia, mudanças de humor, irritabilidade, oleosidade da pele, etc).

Por Dietista Catarina Félix Cachão

19 de Novembro de 2014

O Dia ou a Refeição LIVRE?

Como vai caro leitor(a)?

   Hoje vamos a um tema de caráter comportamental, ou seja, sobre a forma como agimos em determinadas situações. Este tema baseia-se essencialmente na desmistificação do "Dia Livre", tão conhecido entre os "dieters" (palavra inglesa que designa uma pessoa constantemente em restrição alimentar).

   Comecemos por dividir as pessoas que estão a ler este texto em dois grupos:
  1. Os que estão a seguir um determinado plano alimentar para emagrecer;
  2. Os que querem manter o peso estável e privilegiam a saúde.
    Já se enquadrou num grupo?? Então vamos à explicação.


1. Pessoas em emagrecimento

     Se está a perder peso comece por enumerar as razões pelas quais o está a fazer:
  • Não gosta de se ver?
  • Tem uma mobilidade reduzida?
  • Tem um problema de saúde?
     Seja qual for a sua motivação lembre-se dela quando estiver perante um "erro alimentar".
    Entenda-se por "Erro Alimentar um consumo não planeado". A verdade é que o conceito de erro alimentar é diferente de pessoa para pessoa. O que para uns foi gravíssimo, para outros nem chega para ser contado na consulta. Um exemplo:
  • Existem pessoas que valorizam o consumo de um único biscoito ou de uma fruta a mais num período de uma semana.
  • Ao invés outras pessoas desvalorizam os seus consumos, pensando que são irrelevantes para o plano, mas todos juntos, no final da semana, contam na balança. Isto é, se todos os dias consumirmos 2-3 biscoitos, realmente não comemos uma caixa num dia, mas podemos ter comido duas caixas numa semana! O mais difícil é quando isto acontece com alimentos diferentes, por exemplo, hoje 2 biscoitos, amanhã 1 pequena fatia de bolo, no outro dia 1 copo de vinho, depois uma tarde em jejum, depois "uma mão" de batata fritas, um punhado de amêndoas... e quando vemos ao final da semana, variação do peso  0! E claro que as pessoas ficam surpreendidas. Porquê? Porque estão convictas de que cumpriram tudo!
   É muito difícil explicar a uma pessoa que desvaloriza aquilo que come que o que "vai comendo" pode realmente ser decisivo para os seus resultados. Quem nunca ouviu: "Não sei porque engordo, à noite só como sopa!" e na realidade após a sopa petiscam (doces, chocolate, biscoitos, fruta, pão, queijo, tostas, etc etc). Se isso conta? claro que conta, tudo junto pode conter mais calorias do que as ingeridas no dia completo.

   Portanto lição nº 1: Nem 8 nem 80. Permita-se 1 a 2 pequenos erros por semana, valorizando tudo o que come "extra plano". Se comeu uma amêndoa extra conte à dietista, pois isso facilitará o seu trabalho e melhorará os seus resultados.

Artigo recomendado: Qual o seu grau de restrição alimentar?

    Quanto ao "dia livre", tão desejado, costumo dizer que o dia livre acontece naturalmente. Não é preciso planear. Se reparar nas suas semanas, aposto que em todas elas vai encontrar um dia em que saiu da sua rotina alimentar (ou bebeu mais vinho, ou comeu um doce, ou comeu uma fatia de bolo de um amigo, etc etc).

   A questão do dia livre é um erro. É dizermos aos pacientes que estão autorizados a arruinar um ou mais dias do seu esforço! Resultado: frustração na consulta e possível desmotivação. Em termos metabólicos o organismo fica muito confuso com estas variações dos consumos energéticos, isto é, se anda uma semana a fazer uma alimentação saudável e com alguma restrição, chega ao fim de semana e ingere mais calorias do que em 3 dias, é normal que haja maior absorção desses alimentos. Portanto o erro é exponensiado.

   Por outro lado está provado cientificamente que é importante fazer 1 refeição "livre" por semana, quando se está a perder peso (esta periodicidade é variável de acordo com o metabolismo). Nas primeiras semanas (2 a 4) siga o plano a 100% de forma a que o seu corpo perceba a mudança metabólica, isto é, que deve ser menos dependente dos alimentos e gastar as suas próprias reservas de gordura. Daí para a frente pode perfeitamente fazer a sua refeição com erro, repito refeição, não dia. Especialmente se for uma refeição rica em hidratos de carbono, esta será estimuladora para o seu metabolismo, prevenindo que fique "lento" e "habituado ao plano". Ou seja, age como uma "primeira semana".

     Entenda-se por refeição com erro: OU as entradas, OU o prato, OU o doce. As 3 coisas são 3 erros.

Lição nº2: Permita-se comer numa refeição por semana aquilo que gosta: uma sobremesa, um gelado, uma pizza, arroz de pato... o que for, é o seu gosto que manda. Mas atenção à quantidade, coma 1 e não a caixa.

    Para ver toda a explicação metabólica sobre a importância da refeição com erro leia o artigo do blog Fat New World:

A importância da cheat meal

Fonte


2. Pessoas em manutenção e gestão do peso

   Neste caso o dilema é outro: como não arruinar o sucesso da perda de peso? Há quem diga que é mais difícil manter do que perder peso. Depende do ponto de vista. Vou explicar:

  •  Existem pessoas que têm uma restrição demasiado rígida enquanto estão a perder peso com o objetivo de maximizar os resultados. Ou seja, nunca se permitem um único erro alimentar. Quando alcançam o seu objetivo de peso é comum estas pessoas fazerem muitos erros, pois sentem que "já conseguiram, então já podem comer". Está errado. Nos primeiros tempos irão ver pequenas variações na balança, mas de repente podem engordar bastante. Deve sempre evitar o comportamento Tudo ou Nada. Na realidade estas pessoas não "aprendem a errar", ou seja, em situações de erro, não conseguem fazer boas escolhas ou controlar os consumos.
  • No lado oposto estão as pessoas que têm um comportamento mais moderado, que se permitiram os seus erros ocasionais ao longo do plano de perda de peso e que agora, em manutenção, sabem errar. E como se erra???

   Na realidade é muito fácil manter o peso estável, sem grandes preocupações com a alimentação e sobretudo sem viver em dieta (restrição)! O segredo é:

Mantenha uma alimentação saudável de "2ª a 6ª" e faça exercício 3 vezes por semana. Ao fim se semana pode relaxar, comer uma pizza, ir ao chinês, beber "um copo" com os amigos".

     Nada disso se verá na balança, uma vez que o nosso corpo está equipado com um sistema (hormonal) de equilíbrio do peso, que suporta durante algum tempo calorias em excesso. Se exagerar e não se alimentar bem durante a semana, então é provável que engorde alguns gramas. 
Sugiro-lhe o artigo O que fazer após os excessos?

Fonte

Em conclusão...
  Se está a perder peso, não petisque! Tudo conta! Mais vale escolher uma refeição da semana para comer aquilo que realmente gosta, isso até estimula o metabolismo!
  Se está em gestão do peso, então relaxe ao fim de semana e mantenha-se fiel a um estilo de vida ativo e saudável durante a semana. Não seja demasiado rigoroso consigo próprio, tudo reside no equilíbrio.

Por Dietista Catarina Félix Cachão 

14 de Novembro de 2014

(Pré) Diabetes? Uma razão forte para MUDAR.

Como vai caro leitor?

   Hoje, dia 14 de Novembro, é dia Mundial da Diabetes. Neste dia procura-se alertar o público para o perigo que constitui esta doença, que "corrói" lentamente, mas que de dia para dia aumenta a sua prevalência em todo o mundo. Afinal o que está mal?  Vamos saber tudo neste artigo:

   O que é a diabetes?
    
Fonte
   A diabetes caracteriza-se pela incapacidade de controlar a concentração de açúcar no sangue, por:
  • Défice de produção de insulina pelo pâncreas.
  • Ou resistência das célula à "entrada" do açúcar (insulino-resistência)
   Comecemos por perceber como um organismo saudável funciona:
    Quando ingerimos alimentos com hidratos de carbono (simples ou complexos), estes são digeridos e absorvidos sob a forma de açúcares simples (glicose, frutose, galactose) para a corrente sanguínea. Uma vez no sangue, existem duas vias metabólicas de regulação:
  • A captação de açúcar pelo fígado (transformação de açúcar em energia ou em gordura).
  • Produção de insulina pelo pâncreas endócrino e subsequente captação do açúcar pelas células para obtenção de energia (ex. cérebro, músculo, hemácias)
     No diabético um ou vários destes mecanismos não funcionam corretamente.
 
     Eis a classificação atual da diabetes, de acordo com a sua etiologia:   
    
  • Diabetes Tipo 1
Fonte
    Geralmente surge em crianças e adultos jovens; o pâncreas produz pouca ou nenhuma insulina; sem injecções diárias de insulina, os doentes com diabetes tipo 1 não sobrevivem.

  •  Diabetes Tipo 2
    É o tipo mais comum; surge habitualmente em adultos de meia‐idade, mas tem‐se verificado um aumento do número de casos em adolescentes e adultos jovens; o organismo não consegue utilizar de forma adequada a insulina que produz (resistência à insulina) ao mesmo tempo que não produz as quantidades adequadas para as suas necessidades básicas.

  • Outros tipos
       Outros tipos e causas de diabetes se conhecem. Por exemplo, devido a uma sobrecarga de medicamentos, a exposição a metais pesados, a vírus, etc. Ou diabetes da gravidez.
        
    Vamo-nos concentrar na diabetes tipo 2, já que esta depende de fatores ambientais e comportamentais e por isso pode ser prevenida.
      Tudo começa quando comemos demais para as nossas necessidades, quando ingerimos alimentos/bebidas de alta densidade energética (muito calóricos) e quando ingerimos alimentos com muito açúcar ou com farinhas brancas. Ou seja, o organismo...:
  • Produz reservas de gordura a partir do excesso de energia ingerida;
  • O fígado fica sobrecarregado e rodeado de gordura ("fígado gordo" = esteatose hepática);
  • O pâncreas produz grandes quantidades de insulina para baixar o açúcar no sangue.
    Ao longo do tempo a pessoa vai engordando, o fígado vai ficando mais sobrecarregado, mas também o pâncreas  vai ficando mais cansado, não produzindo as mesmas quantidades de insulina!
Por outro lado, as células dos vasos sanguíneos vão-se tornando resistentes à acção da insulina (o que obriga o pâncreas a produzir ainda mais insulina - hiperinsulinismo), numa tentativa de não deixarem o açúcar entrar nas células e controlar a produção da gordura! Quanto maior o excesso de peso, maior a resistência das células à entrada do açúcar, especialmente quando se trata de gordura visceral/abdominal! Resultado: excesso de açúcar no sangue ou hiperglicémia.



    Mas quando é que o excesso é considerado diabetes?

    Normalmente, a concentração de açúcar (glicémia) vai subindo de forma gradual, dando sinais de alerta. Deve-se preocupar quando a glicémia em jejum está entre 100 e 125mg/dl (pré-diabetes). A diabetes é diagnosticada quando a concentração de glicose no sangue, em jejum, é superior ou igual a 126 mg/dL.

Valores de referência para glicémia em jejum e pós-prandial. Fonte

    Quando a glicemia está muito elevada, podem existir sintomas com:
  • Urinar em grande quantidade e mais vezes;
  • Ter sede constante e intensa;
  • Sensação de boca seca;
  • Fome constante e difícil de saciar;
  • Cansaço;
  • Comichão no corpo (sobretudo ao nível dos órgãos genitais);
  • Visão turva
   
    Riscos para a saúde:

  As pessoas com diabetes têm um risco aumentado de doenças cardiovasculares, tais como doença coronária (angina de peito, enfarte do miocárdio), acidente vascular cerebral (“AVC”, vulgo “trombose”) e doença vascular periférica (doença das artérias dos braços e das pernas). Na realidade, 2/3 a 3/4 dos diabéticos morrem por doenças cardiovasculares. Deste modo, se é diabético ou tem risco aumentado de vir a desenvolver deve controlar ou prevenir a sua diabetes, por forma a reduzir o risco cardiovascular.


   A diabetes não tratada pode originar uma variedade de doenças e problemas médicos. Estes incluem cegueira, doença renal, doença dos nervos periféricos, amputação de membros e doenças cardiovasculares. Aqui ficam alguns factos sobre o “perigo” da diabetes:

  • Entre 400 000 e 500 000 portugueses têm diabetes. Destes, cerca de 1/3 desconhece que tem a doença.
  • Mesmo quando os níveis de “açúcar” no sangue estão controlados, a diabetes aumenta o risco de se ter doenças cardiovasculares.
  • Os diabéticos têm uma probabilidade 2 a 4 vezes superior de virem a ter doença cardíaca ou AVC; a sua doença cardíaca é geralmente mais grave que a de um não diabético; os ataques cardíacos provocam mais frequentemente a morte quando se tem diabetes.
  • Os doentes com diabetes têm uma maior prevalência de outros fatores que aumentam o risco de desenvolver doença cardiovascular:
  1. Provoca aumento dos lípidos (gorduras) no sangue, isto é, aumenta a concentração do  colesterol LDL (mau colesterol) e dos trigliceridos e reduz a concentração do colesterol HDL (bom colesterol); estas alterações também contribuem para o maior risco de doença cardíaca e AVC; 
  2. Cerca de 70% dos diabéticos têm excesso de peso ou são obesos e a maioria é sedentária;
  3. Cerca de 60% dos diabéticos têm hipertensão arterial.
Prevalência de fatores de risco cardiovascular em pacientes com e sem diabetes 


   Como controlar a diabetes?
   
     Para manter a diabetes sob controlo é essencial que trabalhe em conjunto com os profissionais de saúde (médico, dietista e enfermeiro). O segredo para controlar os níveis de açúcar no sangue é comer de forma saudável, manter o peso ideal e fazer exercício físico regular. A juntar a estas medidas essenciais, pode ser necessário tomar medicamentos (comprimidos e/ou insulina). 
    É fundamental que um diabético seja consultado de forma regular e participe em programas de treino e educação para aprender a lidar com a sua doença e respetivas complicações (estes podem ser fornecidos pelos profissionais de saúde, pelas associações, etc). 
   A boa notícia é que controlando o seu peso, fazendo uma alimentação saudável e mantendo-se ativo é muito provável que reverta totalmente o estado pré-diabético ou que controle a diabetes, reduzindo a necessidade de medicação.

   O que é uma "alimentação saudável"?
   Além de manter os níveis de açúcar dentro de valores normais, uma alimentação saudável ajuda a reduzir outros fatores de risco cardiovascular – o colesterol elevado, a pressão arterial elevada e o excesso de peso. Aqui ficam alguns conselhos gerais:
  • Eliminar os doces da alimentação não é suficiente para controlar a diabetes!
  • Comer 3 refeições principais por dia e dois snacks nos intervalos (comer sempre de forma moderada às refeições); assim evitam‐se a fome e as refeições copiosas.
  • Os seguintes alimentos (ricos em sacarose e/ou glucose) devem ser evitados a todo o custo: açúcar, mel, bolos, doces, compotas, marmelada, pudins, frutas cristalizadas, passas, figos secos, chocolate, etc.
  • Preferir alimentos com açúcar natural, como a fruta fresca, mas consumi-la moderadamente! 1 a 2 peças por dia, fora das refeições principais. VER O que deve saber sobre a fruta. 
  • Comer sempre legumes, hortaliças e saladas às refeições principais (ou sopa).
  • Moderar o consumo de alimentos riscos em hidratos de carbono: massa, feijão, grão, ervilhas, favas, lentilhas e soja podem ser comidos em quantidades moderadas;arroz e batatas (em particular se fritas) devem ser evitados; pão deve ser comido com moderação (evitar comer às refeições) e preferir pão escuro ou de mistura ao pão branco;evitar empadas, folhados, tostas e bolachas.
  • Comer peixe mais frequentemente, em especial os peixes gordos ricos em ómega-3 (sardinha, carapau, cavala, arenque, enguia, sarda, truta, salmão, atum). VER A gordura escondida.
  • Evitar carnes gordas (preferir carne de frango e peru sem peles, coelho e carne magra).
  • Preferir leite magro, iogurtes magros e queijo fresco pasteurizado com pouca gordura (em vez de outros tipo de queijo).
  • Evitar a manteiga e margarinas vegetais, veja o artigo sobre as alternativas.
  • Adotar uma culinária “mais leve” e saudável:
    • Preferir um dos seguintes métodos de confeção: estufar, cozer, grelhar (sem queimar) ou assar com pouca gordura;
    • As especiarias e as ervas aromáticas ajudam a preparar refeições evitando a adição excessiva de gordura e de sal; utilizar tomate, cebola, pimento, alho, sumo de limão, etc.
    • Deixar arrefecer os molhos gordos e retirar a gordura à superfície com uma espátula. Veja o artigo sobre molhos saudáveis.
    • Preferir o azeite para temperar e cozinhar (1colher de sopa por refeição).
  • Não comer “fast‐food” (hambúrgueres, pizzas, …) e evitar comidas congeladas/enlatadas já confecionadas.
  • Bebidas: A única bebida saudável é a água (beba pelo menos 1,5 litros por dia):
    • Pode beber chá ou café (desde que não coloque açúcar)
    • Não beber refrigerantes (que têm elevado teor em açúcar) – ex: sumos de fruta, colas, etc.
    • As bebidas “light” (em que o açúcar é substituído por adoçante) podem ser uma alternativa para consumo ocasional;
    • Se a diabetes estiver controlada pode ingerir uma pequena quantidade de vinho tinto (2 copos/dia = 250 ml/dia) e sempre a acompanhar uma refeição que contenha hidratos de carbono (arroz, massa, batata, legumonosas); em alguns casos o vinho deve ser evitado a todo o custo, pelo que deve sempre inquirir ao seu médico sobre este assunto.
  • Atenção aos alimentos especiais para diabéticos; apesar de não terem açúcar convencional (sacarose) contêm outras substâncias que conferem o sabor doce (mel, xarope de milho, dextrose, maltose, frutose, açúcar invertido, sorbitol, manitol, entre outros – ver nas embalagens!); estas substâncias também fazem aumentar os níveis de açúcar no sangue e como tal descontrolam a diabetes!
  • Nos dias de festa algumas destas regras podem ser quebradas, mas atenção, os dias de festa são para acontecer ocasionalmente, seja sensato.
  • Não esquecer de fazer exercício físico de forma regular, complementado assim a alimentação equilibrada e saudável; a diabetes além de uma doença é uma oportunidade de aprendermos e de ensinarmos os outros a “viver bem”!
    
   Em conclusão:
  
     A diabetes é uma doença silenciosa que vai corroendo todo o nosso organismo. O seu controlo é essencial, mas tudo começa na prevenção. 
    Garanta que se mantém ativo, comendo de uma forma saudável e equilibrada. Os excessos são para os dias de festas. Se detetar numas análises de rotina uma glicémia matinal acima de 100mg/dl tenha em conta esse alerta e delineie um plano de ação! O excesso de açúcar no sangue é um oxidante que envelhece, enfraquece e engorda!
    Caso tenha dúvidas de como o fazer não hesite em contactar um médico e/ou dietista. 
   Não seja mais um para a estatística. Mantenha-se saudável! 
Por Dietista Catarina Félix Cachão